Quando abater meu boi?

Estratégia de curto prazo. Com o custo de produção menor, devido a baixa cotação do milho usado para a ração, produtores estão apostando mais na tercerização da engorda dos animais

Com a ração mais barata e a perspectiva de uma arroba em alta para o final de ano, pecuaristas que não possuem confinamento próprio estão procurando "boiteis" para aproveitar as condições favoráveis para a atividade no segundo semestre deste ano.

O "hotel" para bois é uma espécie de spa, no qual a intenção é que o animal ganhe peso para que possa ficar pronto mais rapidamente para ser vendido aos frigoríficos para o abate. A busca pelo serviço tende acrescer nos próximos meses, avaliam especialistas em pecuária.

"Temos por volta de 250 boiteis no Brasil, que respondem em média 40% do volume de animais confinados no País", estima o diretor executivo da Associação Nacional de Confinadores (Assocon), Bruno Andrade. "São poucas fazendas, mas que concentram um volume de animais grande", diz.

Para 2017, a perspectiva da Tortuga/DSM é de que 4,2 milhões de animais sejam confinados no País, meio milhão a mais de animais ante 2016.

Andrade explica que a terceirização da engorda de animais em boiteis começou a se consolidar no mercado brasileiro há dez anos, mas é uma opção desde o começo dos anos 2000, quando os confinamentos comerciais - nos quais é feita a engorda intensiva de gado no cocho - começaram a despontar no País.

O sistema funciona da seguinte forma: o animal entra no confinamento com, em média, 350 quilos e deixa o local cerca de 100 dias depois com peso médio de 550 quilos, pronto para ser vendido ao frigorífico. Esse ganho de peso representa, em média seis a oito arrobas. Neste período, o pecuarista paga uma diária, que gira em torno de R$ 8 por dia por animal em São Paulo.

O "hotel" para a boiada oferece ao pecuarista a possibilidade de confinar o gado sem a necessidade de investir em uma estrutura para isso. Além disso, garante a engorda em períodos de seca, em que a pastagem de qualidade não está disponível ao rebanho.

De acordo com o gerente de confinamento da Tortuga/DSM, Marcos Baruselli, este segundo semestre será de bons negócios para quem o oferece o serviço e para quem o utiliza. "O dono do boitel está com uma dieta barata e consegue fazer uma arroba com bom preço, aumentando suas margens", afirma. "Já o pecuarista que terceiriza a engorda evita que o boi perca peso em razão da seca e poderá aproveitar preços que estão beirando os R$ 138 a arroba no mercado futuro", salienta o especialista.

O pecuarista Pedro Merola, proprietário de um dos maiores boiteis brasileiros, no Confinamento Santa Fé, em Santa Helena de Goiás (GO) planeja "hospedar" 60 mil bovinos na propriedade neste ano. Do total, 10% dos animais são próprios, alta de 30% em relação a 2016.

No ano passado, 73 mil cabeças foram confinadas na propriedade ao longo do ano. "O resultado de 2017 só não vai repetir o do ano passado porque no primeiro semestre as condições não estavam favoráveis como estão agora", afirma Merola. A propriedade mantém confinamento desde 1985. Começou com capacidade para apenas 300 cabeças e passou a oferecer o serviço de boitel em 2008. Hoje tem capacidade para abrigar 40 mil animais.

"Acredito muito no potencial dessa atividade", diz Merola. Prova disso é o investimento de R$ 3 milhões feito na parceria com a Bosch. A propriedade foi a primeira a testar o sistema de pecuária de precisão da empresa, que consiste na instalação de balanças nos piquetes e permite acompanhar em tempo real o ganho de peso dos animais. Os testes tiveram início há dois anos e meio e o sistema estará disponível para comercialmente aos pecuaristas em 2018.

O pecuarista Thomas Campos, da fazenda Engenho São Francisco, de Quirinópolis, está entre os produtores que utilizam o boitel. Ele trabalha com cria e recria e envia, a cada ano, 1 mil animais dos 2,3 mil que mantém no rebanho, para abate. "Essa é uma estratégia para engordar os animais na seca e não é mais uma opção", afirma o pecuarista.

"Além disso, estamos em processo de crescimento da área de pastagem e não temos espaço para confinar." Ele vai arrendar mais 1,6 mil hectares para chegar a uma área total de 5 mil hectares, nos quais mantém pastagem e cana-de-açúcar.

Condições favoráveis

O aumento da procura pode ser explicado pela retomada do preço do boi gordo e um custo de produção ainda muito bom. "Isso faz com que a conta do boitel vá melhorando", avalia Andrade, da Assocon.

O indicador Esalq/Cepea do preço do milho, que é o principal insumo para alimentação dos animais, fechou a quinta-feira (10) em R$ 26,14 a saca de 60 quilos - queda é de 25% desde 10 de janeiro deste ano.

Ao passo que o preço da arroba, que despencou após um primeiro semestre do ano cheio de percalços para a pecuária, volta a ganhar fôlego. O indicador no mercado físico fechou ontem a R$ 128,52 por arroba. Se comparado com a cotação de 10 de janeiro, houve retração de 16,3%. Mas ao considerar só o último mês o indicador subiu 2,6%.

"Os preços no mercado físico estão crescendo mais lentamente do que o esperado, mas os valores no mercado futuro já reagiram bem", observa o sócio da Agroconsult Maurício Palma Nogueira. O contrato para outubro fechou ontem cotado a R$ 138. "Os boiteis vão encher e haverá muita procura pelo serviço", afirma o analista.

Data de Publicação: 15/08/2017 às 19:10hs
Fonte: DCI

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